localização
São Paulo
projeto
2025
Arquitetura:
@of457.arq @messinarivas @arq.vao @thgaugustus @helenameirellesarquitetura @thiago__augustus
Projeto de Paisagem: @estudio_bulla
Estrutura madeira:
@joao_pini @ita.engenhariaemmadeira
Equipe de produção:
@marinalimarina @delfinafacio @juliagrang @lluizasouza @romain_delachaux @gab.wiss23 Camila Silva, @victor.quio @mfgxavier
Consultores: Julia Galves (Conforto Ambiental e Sustentabilidade) Roberto Akio Hattori (Climatização) Silmar Sendin (Prevenção e Combate à Incêndio)
CONCURSO SESC GALERIA
Menção Honrosa
Na galeria, cada clarão
Demolições em série configuram a fotografia atual da cidade de São Paulo. Impulsionadas pelo setor imobiliário e a indústria da construção, as imagens de acumulações amorfas de materiais, fragmentos irreconhecíveis das edificações de ontem, tornaram-se presenças constantes no nosso cotidiano. Por isso, ao nos convocar para pensar a partir de uma existência, o edital do Sesc Galeria desafia a lógica do consumo e do descarte, assim como a cultura dos apagamentos físicos e simbólicos. Propõe-se aqui um projeto de outra natureza, que não a da hegemônica linearidade da extração > produção > construção > demolição > descarte, sempre vigentes. O exercício de projetar ciclos, ao invés de linhas com início, meio e fim, se faz cada vez mais urgente para que possamos reposicionar criticamente o nosso fazer construtivo em um mundo que não pode mais compactuar com a fantasia da infinitude dos seus recursos.
No entanto, o projeto a partir de uma existência requer um olhar atento e investigativo. Além da análise estrutural, junto à equipe de engenharia, com o intuito de viabilizar a criação de novas espacialidades (vazios, jardins, circulações) alinhadas à eficiência e à economia de recursos, uma outra aproximação se fez imprescindível: o contato com os desenhos do autor do Edifício João Brícola, o arquiteto Elisiário Bahiana, abrigados no acervo da FAU-USP. Ao nos debruçarmos sobre as versões do projeto (de 1937 a 1939), encontramos pistas de outrora que refletiram em diversas decisões: a preservação parcial de uma escada em leque; o aproveitamento dos vazios já existentes para a constituição do elemento estruturante, um núcleo rígido de circulações e infraestruturas; a incorporação de detalhes originais (portas de entrada, vitrines e sistemas de fechamento); e o desenho do piso no térreo, um mural horizontal e monocromático criado a partir do encontro com um trecho ampliado de desenho que revelava o chão de losangos, triângulos e retângulos na entrada junto à R. Cel. Xavier de Toledo.
O chão público, de uma forma geral, foi o grande tema uma vez que o edital remete às galerias que se espalharam pelo Centro Novo nas décadas de 50 e 60, após a inauguração do Segundo Viaduto do Chá, em 1938. Na canção As vitrines, de Chico Buarque, a permeabilidade física dessas tipologias público-privadas é retratada nos versos ‘Eu te vejo sumir por aí, te avisei que a cidade era um vão’; ao mesmo tempo em que aponta para a permeabilidade visual e reflexiva em ‘Tua sombra a se multiplicar / Nos teus olhos também posso ver, as vitrines te vendo passar’. Essas imagens nos puseram a pensar sobre a potente relação de trocas e travessias entre dois espaços culturais: o Sesc Galeria e o Theatro Municipal. O que observariam as pessoas quando sentadas na escadaria do teatro? Daí a presença da exposição no térreo, veiculada para a cidade por meio dos planos de vidro, sob sombra da marquise.
Ainda no térreo, nos pareceu importante que as escadas rolantes ganhassem um protagonismo desde a rua, a exemplo de suas vizinhas (do Rock, do Reggae, Nova Barão, Metrópole, etc.). No novo Sesc, quem aceitar o convite dessas escadas chegará, ao final do percurso, no 6º pavimento: um Café-mirante avarandado, todo aberto e sem caixilhos, em meio a um jardim. O estar prolongado sugerido aqui pelas mesas, bancos, redário e pela vista ampla para o Viaduto do Chá, Vale do Anhangabaú, Praça Ramos de Azevedo, Edifício Sampaio Moreira, atrai e acolhe um grande número de pessoas, de modo que esse pavimento trabalhe em colaboração com o térreo. Por fim, a última surpresa resguardada nele: ao se aproximarem do jardim as vistas se expandirão no vazio que rasga verticalmente o edifício, comunicando visualmente o público com os programas de uso mais privativos e específicos dos andares superiores. O contato com o céu, também característico das galerias, se faz por meio desse vazio por onde entra a luz e a água revelando os humores do tempo, pois, como diz a canção, ‘na galeria, cada clarão é como um dia depois de outro dia’.

















